Hoje leremos um texto e realizaremos a interpretação.
Superfície de lago tranquilo. Interior de mar revolto. Assim estava naquela manhã, quando abriu a janela do 2º andar e jogou o gato. Ao menos ele tinha mais 6 vidas para tentar. O caso dela era completamente diferente, e sabia disso! Saiu pela porta batendo com força.
Na instantaneidade do vento alcançou o carro na garagem do prédio. Pisou a embreagem com a delicadeza de uma pedra n’água. Pronto, mais um dia se iniciava. Bastava enfrentar o trânsito, disputar por uma vaga, lutar com as escadas do trabalho, com o trabalho, e com o chefe, digerir o almoço atordoado e mais trabalho, a viagem de volta, deslocar-se com a destreza de um tamanduá na neve até a porta do apartamento.
A cara? De lago tranquilo. Sempre! Sempre! Dia após dia, às vezes jogando o gato pela janela, outras se arrastando escada acima. Mas era à noite que tudo mudava. A cabeça sobre o travesseiro destampava um caldeirão de pensamentos... matutava, como diria um bom matuto do sertão. Tudo girava e viajava de orelha a orelha, como se as sinapses já não fossem mais necessárias, sonhava mais rápido.
E o mar ganhava ares de ressaca. A Lua largada na imensidão era lambida pelas ondas e redemoinhos de cada revolta, de cada tentativa de rebeldia. Durante a noite, cortava gargantas, chutava as pedras, treinava Box, vencia em tudo. Era um monstro de sorriso malicioso nos lábios. A voz brandia entre os dentes como espada de cavalheiro diante de um dragão.
Amanheceu...
Ao lavar o rosto, restauraria o sorriso de pasta de dente, aquela recomendada por todos os dentistas. O gato não aparecera para aproveitar a segunda das sete vidas. O que haveria acontecido? Ela? Um lago tranquilo, dentro de um vestido florido, acompanhado de sapatos pretos e desconcertantes de tão desatualizados. A única deixa do monstro que vivia naquelas entranhas eram os cabelos. Vermelhos e revoltos, domados sim pela moda dos lisos e escorridos – mas só para que não descobrissem sua verdadeira identidade”.
ATIVIDADE
1. Qual a figura de linguagem presente no título?
2. Como é o cotidiano da personagem? Qual adjetivo poderíamos empregar para caracterizá-lo?
3. A personagem reage de que maneira ao seu dia-a-dia? Qual imagem ela passa às outras pessoas e quais são seus verdadeiros sentimentos?
4. A personagem sabe quem é verdadeiramente ela é? Qual é sua identidade?
5. Há semelhanças entre você e a personagem? Como você se relaciona com seu cotidiano? Há diferenças entre o que mostra o seu rosto e o que sente por dentro? Explique.